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RH
SOBREVIVERÁ?
Somente a ‘ressignificação’ do
papel
e das contribuições da área podem lhe
garantir lugar ao sol
Hamilton
Bueno (*)
I
- UM CENÁRIO REPLETO DE TRANSFORMAÇÕES
A
história comprova: na revista Fortune 500, figura hoje apenas
um terço das empresas relacionadas em 1970. Dois terços delas
desapareceram literalmente. Estavam tão seguras de sua condição
de favorabilidade, que simplesmente ignoravam a evolução que vinha
acontecendo ao seu redor e no resto do mundo.
No Brasil, Cofap e Metal Leve, baluartes da indústria
de auto-peças, ameaçadas em sua sobrevivência, foram incorporadas
por empresas transnacionais. No mundo, a IBM, que prometia emprego
do berço ao caixão, demitiu mais de 100 mil. A GM, símbolo
americano do estado da arte do gerenciamento, demitiu 50 mil.
O presidente do Sindipeças fez uma previsão alarmante: o novo
milênio conhecerá somente um terço das empresas atualmente atuantes
no setor. O mercado encolheu e um jornal de São Paulo informou:
mais de um bilhão de desempregados no mundo. É o caos? Não, é
o progresso ao modo capitalista, é a globalização, que no contexto
econômico, rima com altos volumes de capital, produção em escala,
relativo controle do mercado consumidor (você pode escolher a
cor de seu carro, desde que seja preta!) e domínio de determinada
tecnologia.
II - AS DIMENSÕES
DO PAPEL DE RH
É
neste cenário que desejamos aclarar um pouco mais a atuação de
RH. Para alguns, RH está fechando as portas, para outros, é estratégico.
Essa dicotomia lança novas luzes sobre o escopo de sua atuação
e indica um sofrido período de transição.
Para
mim, o papel de RH têm três dimensões: o estratégico, o instrumental
e o operacional. Em nível estratégico, ajuda a organização a refletir
sobre seus processos sociais: qual é a identidade organizacional;
qual sua forma de decisão e conseqüentemente de participação;
qual é o estilo gerencial básico; qual a relação entre contribuição
e recompensa. No nível instrumental, cabe a RH suprir a liderança
com ferramentas de gestão, tais como um processo seletivo vivencial
que avalie a capacidade de aprender dos novos profissionais; um
projeto de carreira que considere a vocação e as habilidades essenciais
de cada ser humano. No nível operacional, cabe a RH executar uma
série de serviços tais como pagadoria, benefícios, encargos etc.
Desnecessário dizer que as dimensões instrumental e operacional
serão processadas por terceiros, muito mais enxutos, dedicados
e preparados.
Se
Recursos Humanos atuará numa dimensão estratégica, então cabe rever
o alcance de suas contribuições e responsabilidades.
III - DILEMAS & DESAFIOS
1. UM NOVO PAPEL
Fiz
uma pesquisa há menos de um ano com 1700 empresas e, dentre outras
coisas, perguntava ao principal executivo (CEO) a quantas andava
a área de RH. Mais de um terço dos RHs tinham uma atuação restrita
ao operacional, cerca de 50% dedicava-se, além do operacional,
ao instrumental e pouca gente fazia o que RH realmente deveria
fazer: cuidar de ações estratégicas em RH.
Neste
contexto, a estrela nascente é a do consultor interno. Quadro
enxuto, composto por polivalentes e multifuncionais competentes,
apoiarão negócios, plantas ou filiais, sempre com foco nas alianças
estratégicas (shareholders, stakeholders: fornecedores,
clientes, empregados e comunidade), que serão viabilizadas mediante
o estabelecimento de relações de reciprocidade. Note que RH começa
a romper as fronteiras internas da organização.
Para
a proficiência como consultor, dentre outras habilidades, é requerida
a destreza para diagnósticos precisos, que identifiquem a causa
a ser isolada e não o sintoma a ser temporariamente minimizado.
Aí mora o perigo! A capacidade de intervenção do profissional
de RH, na estruturação de uma nova postura diante dos obstáculos
e das dificuldades, é razão direta de seu sucesso.
O
que me parece curioso é que muitos profissionais de RH ainda não
entendem porque são candidatos naturais aos cortes de pessoal.
2. SER HUMANO X TER HUMANO
Pedrinho
sempre foi um eficiente profissional de uma multinacional americana.
Fruto de seu suor e de seu flagelo - que só ele sabe quantificar
- subiu no cargo e chegou a gerente. Ganhou um carro importado
e uma sala maior, com espaço para os diplomas vindos da matriz.
Seu salário foi acrescido em 22% e pode agora concorrer a um bônus
de até 5 salários anuais. Pedrinho estava radiante imaginando
a ponta de inveja de seus competidores internos. Sua ex-mulher
já previra seu sucesso, é verdade, vez que, como um bom workaholic,
seu estresse lhe valera alguns quilos a mais, aumento da pressão
arterial e seus filhos ameaçavam chamá-lo de tio. Quantos de nós,
na luta para ter, simplesmente esquecemos de ser. Como diz Nuno
Cobra: “será que você não pode se colocar na sua agenda?”
As empresas precisam ser despertadas para perceber
o ser humano de forma holística e compreender sua complexidade,
a tratar seriamente de suas emoções e a respeitar uma outra dimensão:
a espiritual.
Jamais
advogaria o paternalismo assistencialista, pernicioso e manipulativo
que transforma seres humanos em amebas dependentes. Conceber pessoas
como objetos de poder para os jogos empresariais é rebaixar o
ser humano à condição inequívoca de fantoche.
Tudo
favorece o ter humano, um bibelô, que mais parece um conjunto
de etiquetas ambulantes, cultuando uma série de “babilaques” só
para aparecer. Riqueza exterior e pobreza interior.
Eis
um grande dilema de RH: como valorizar e respeitar o ser humano,
num paraíso capitalista que transforma a pessoa em objetivo descartável,
fruto de uma ética utilitarista.
3. O DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA
O
país acordou diferente, meio atordoado após o evento do saída
do Presidente Collor, lembrando-se que esquecera da moral, dos
bons costumes, do respeito ao direito alheio.
Uma
das ações de RH neste contexto refere-se ao estímulo ao autodesenvolvimento,
que propiciará raciocínios mais sistêmicos, maior profundidade
de análise, maior elaboração conceitual, todos eles coração
da qualidade total como filosofia de vida.
Acredito
que essa tarefa dure ao menos dez anos, com intensos programas
de educação continuada, pois, filhos da Cartilha Caminho Suave,
aprendemos a repetir, ainda não aprendemos a pensar. No início
do século Piaget nos presenteou com seu construtivismo, cuja metodologia
pretende que tenhamos uma visão mais crítica e elaborada das coisas
e dos processos sociais. Aspira-se, assim, a mudar o modelo de
mundo das pessoas.
Os
cinco níveis de consciência de Loevinger podem muito bem servir
de inspiração para nossos profissionais de RH:
|
Nível de consciência |
Forma de pensar |
|
Impulsivo |
“Faço, embora não saiba porque.” |
|
Auto-protetor |
“Faço porque os outros fazem.” |
|
Conformista |
“Regra é para ser seguida.” |
|
Consciente |
“Ajo assim porque conheço as razões.” |
|
Autônomo |
“Por um fim maior,
posso até transgredir a norma.” |
4. A PROFISSIONALIZAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA
No país do jeitinho,
o amadorismo tem feito muitas vítimas.
Na
Coréia, a população economicamente ativa tem uma média de 10 anos
de boa escola, enquanto no Brasil não passamos dos 3. Os esforços
governamentais ainda se concentram na melhoria da ínfima remuneração
do professor e na desgastante tarefa de fazer o dinheiro chegar
ao seu efetivo destino. Sabemos do esforço hercúleo da área federal
mas convenhamos, ainda é pouco.
Quando
falo sobre esse assunto com executivos, logo recitam que o problema
é do governo. No Japão, as boas escolas pertencem aos kereitzu
(grandes corporações); na Coréia, os prédios foram construídos
pela iniciativa privada.
Precisamos
de uma escola de qualidade e, no curto, prazo, só será possível
se a iniciativa privada arregaçar as mangas - através de sua
área de RH - e começar a trabalhar já. A colheita se fará, também,
em prazo não inferior a dez anos.
5. A DESREGULAMENTAÇÃO DAS RELAÇÕES DO TRABALHO
No
Brasil, mais de 57% dos trabalhadores vivem no mercado informal.
Sem carteira assinada, FGTS, direito à aposentadoria e ao seguro
contra acidentes do trabalho. No Brasil é assim, tudo ou nada.
Ou se está dentro do sistema ou é tratado como pária. Óbvio, isso
tem de mudar, e o embrião é a nova legislação para contratação
temporária, que traz a semente da flexibilização. Também a CLT
cairá por terra dando vez: a novos sistemas de contratação
individual e coletiva; à regulação de formas alternativas
de prestação do trabalho; à mediação, à arbitragem e ao novo papel
da justiça do trabalho.
Neste
contexto, estaremos separando o joio do trigo, pois só sobreviverão
os profissionais de RH que realmente estejam preparados para dar
vazão às diversas vozes organizacionais, bem como qualificados
para estabelecer uma nova relação capital-trabalho baseada nos
quatro pilares da efetiva parceria: complementaridade, reciprocidade,
objetivos comuns e integridade.
6. COUNSELLING: UMA NOVA E CONTRIBUTIVA DIMENSÃO DO TRABALHO
DE RH
Maria,
do setor de Compras, chora copiosamente. Manuel, seu chefe, é
ríspido, pouco afetivo, só pensa em resultados. Ele está irritado
pois, pela enésima vez, Maria não segue o padrão para tomada
de preços desejado pela empresa. Herbert, economista, está inseguro,
acha que não escapa do próximo corte. Vive a chamada crise da
meia idade, questiona se tem vocação para aquele trabalho.
Sabe também que seu desempenho, sempre considerado acima das expectativas,
vem decaindo sucessivamente.
Eis
um retrato de situações do cotidiano das empresas. Maria e Manuel
vivem um conflito de subordinação. Manuel, parte do problema,
terá de encaminhar uma solução para o conflito! Herbert, o economista,
passa por uma crise natural da idade, onde valores, significado
da vida etc são questionados. Um bom aconselhamento de carreira
é a provável solução.
Chefes
e RH despreparados, eis o diagnóstico. Nasce um papel novo, o de
terapeuta organizacional. Alguém preparado, interna ou externamente,
e suficientemente neutro para ouvir e apoiar (e se for o caso, encaminhar
uma solução).
7. A ÉTICA DO PRAZER
A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício
e do amor um pecado.
Se
na sua empresa as frases mais comuns são “Graças a Deus, é sexta!”
e “Vai começar tudo de novo, é segunda!”; está provado: há vida
após a morte. Sua empresa adota a ética do dever, onde o trabalho
é castigo, fazendo jus à sua etimologia: tripalium, um
instrumento de tortura.
Muitos
apregoam que os empregados precisam vestir a camisa. Mas, onde
está a camisa para eles vestirem? Tecnicamente, prefiro identificar
interesses e através deles, construir as âncoras que permitirão
maior aderência do profissional aos objetivos organizacionais.
Compõem essas âncoras, dentre inúmeras outras, os programas de
:
·
saúde ocupacional,
·
encarreiramento e counselling ,
·
melhoria de performance,
·
fortalecimento da interdependência,
·
comprometimento com as decisões partilhadas,
·
comunicação multilateral, aberta e assertiva,
·
adequada retribuição pela agregação de valor e
·
celebração das conquistas.
Bem
desenhadas, elas restauram o respeito e a dignidade do ser humano,
colocando-o como sujeito de seu desenvolvimento e de expressão de
seu profissionalismo.
8. REMUNERAÇÃO BASEADA EM RECIPROCIDADE
Um
dos pontos nevrálgicos nas organizações é o seu sistema de recompensas.
Atualmente pagamos pelo que se deve produzir e não pelo que efetivamente
é produzido. A remuneração é alicerçada em “job based”
(atrelada ao cargo, configurado pela expectativa da realização
de determinadas tarefas). O futuro aponta para outro alicerce,
o “skill based”, onde o foco é a habilidade utilizada
na geração do valor.
As
velhas avaliações de desempenho serão sepultadas, dando lugar
a um gerenciamento de performance baseado em processos e resultados
do trabalho e não mais em características pessoais (“psicologismo”).
O gerenciamento de desempenho, pela via 360 graus, será um forte
instrumento de crescimento pessoal e profissional.
9. RH É BUSINESS
Lembro-me
de quando fui superintendente de uma empresa de quatro mil empregados
e combinei com o Presidente reinvestir no desenvolvimento dos
nossos profissionais todo o lucro do treinamento que prestávamos
para terceiros. Com esta ação, dentre tantas outras, transformamos
o RH num centro-de-lucro. Várias medições podem ser implementadas
no sentido de mostrar a eficácia das ações de RH para a melhoria
do negócio.
Outra
questão aqui é de mudança de mentalidade: num sistema capitalista,
RH é contratado atender aos objetivos de produtividade, satisfação
do cliente, aumento do market share, etc. RH sente-se
premido por uma questão ética, pois os referenciais de conduta
e de interesses da cúpula e da base são, em regra, distintos.
A opção
ética determina a imagem e o grau de apoio a ser oferecido a RH
pelos formadores de opinião. Essa decisão é crucial pois envolve
valores e inteligência. Dentre as diversas abordagens, temos:
Ética
|
Justificativa |
|
Finalidade |
O fim justifica a ação,
sob a ótica do agente. |
|
Princípio |
Os valores justificam a ação. |
|
Conseqüência |
Os resultados serão benéficos para
uma quantidade maior de pessoas. |
O
que se percebe é que RH vive de espasmos, operando ações cosméticas.
Para que se possa sonhar com um desenvolvimento organizacional
sustentado, as ações carecem de patrocínio e de intensas negociações
para se estabelecer mecanismos eficazes de controle, de forma
a criar, na primorosa lição de Robert Srour: “um código
de ética que não se converta em um receituário dogmático, de caráter
punitivo e proibitivo, mas em um conjunto de orientações consentidas”.
10. UM NOVO MODELO DE LIDERANÇA:
A GERÊNCIA COACH
O
líder coach para mim é, em essência, um educador. Estamos
gradativamente abandonando o mito do gerente herói: um ser superior
que tinha todas as respostas, era forte, desbravador e estava
sempre à frente do time. Tudo o que obteve foi um subordinado
alienado, movido por uma relação de amor e ódio. Mais ódio e ressentimento
que admiração e compromisso.
Hoje,
esperamos que o líder atue com base em valores, construa boas
perguntas, seja parte do time, cultive talentos e interprete a
diversidade cultural.
Seguimos
assim, uma evolução altamente qualitativa. Os velhos chefetes,
baseados na autoridade formal, valiam-se da coerção: “faça
o que eu mando ou morrerás no ostracismo”. Depois, assistimos
aos chefes que se baseavam (e se baseiam) em recompensas, na sua
maioria, manipulativas. Vislumbramos, agora, o líder transformacional,
aquele que busca conectar a identidade individual à identidade
organizacional, construindo, assim, o que chamamos de crença na
causa, pois permite de forma consistente e contínua, que
as pessoas encontrem significado naquilo que fazem.
IV - A CATEDRAL
E OS SEUS CONSTRUTORES
Para
nós, terceiro-mundistas, os efeitos da competição internacional
podem ser devastadores. Vemos na ameaça a chama da oportunidade
para a transformação organizacional, alicerçada por uma cultura
de aprendizado contínuo que coloca o ser humano como agente de
sua própria evolução
O quadro a seguir sinaliza algumas tendências:
|
De |
Para |
|
Visão setorial |
Visão do negócio |
|
Burocrata |
Estrategista |
|
Tecnicista |
Parceiro de negócio |
|
Independente |
Interdependente |
|
Empregado
(centro-de-custo) |
Empresário
(centro-de-lucro) |
|
Risco moderado
(baixa mobilidade) |
Alto risco
(ambiente de incertezas) |
|
Controlador |
Transformador Organizacional |
Estaria
RH pronto para a tarefa? A resposta é não. Nas minhas andanças
pelas empresas e instituições, faço contatos ou diagnósticos com
mais de 50 empresas por ano. Minha orientação está em sugerir
um novo papel, o de VP, Verdadeiro Profissional, aquele que alia
técnica apurada e valores à visão de estrategista.
Lembro-me
da história dos três pedreiros. RH sempre se pareceu com o primeiro
deles, cuja tarefa era assentar tijolos. Vivemos hoje próximos
à visão do segundo pedreiro, construindo paredes. É chegada a
hora de aprendermos com o terceiro pedreiro e edificarmos uma
catedral.
Para
mostrar seu valor, RH precisa tornar-se empresário de si mesmo,
criando condições de empregabilidade para seu próprio negócio.
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(*)
Hamilton Bueno é palestrante e expert em liderança, motivação,
vendas e negociação. Seus livros já venderam mais de 45 mil exemplares
e ele já treinou mais de 22.600 profissionais. Contato com autor:
14-3842-3077 ou
hamilton@hamiltonbueno.com.br
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